Revista Espaço

50 anos e muitas histórias para contar

No aniversário de cinco décadas da emancipação política, a Revista Espaço mostra um pouco da trajetória do município de Timóteo11

Timóteo ou Acesita? Hoje o nome Timóteo já aparece mais naturalmente na fala dos moradores. Mas quem chega à rodoviária de Belo Horizonte ou circula de ônibus pela cidade precisa conhecer bem as particularidades do município que nasceu e cresceu com uma história que se confunde muito com a da empresa âncora da economia local. Até hoje, moradores mais antigos fazem questão de explicar as diferenças. E não são só eles: as agências de correio e bancárias com filiais Acesita, a própria existência do Centro Norte e Centro Sul ainda mantêm vivas as lembranças de um tempo em que tudo girava em torno do nome da Empresa.

Ainda que tenha mudado de nome e que pese sobre a Aperam o título de maior empresa do município, ao longo dos anos vários outros empreendimentos chegaram à região, muitos deles como prestadores de serviços ou fornecedores da própria empresa. Emancipada em 1964, a cidade começou a tomar um caminho próprio, com uma administração independente. Vale lembrar que até aquele momento, toda a administração local era exercida pela própria empresa. Escolas, hospitais, supermercados, clube – tudo tinha sido pensado e construído para receber profissionais que chegariam para trabalhar naquele empreendimento ousado, num local praticamente sem infraestrutura.

Junto com esse potencial industrial, chegaram novos empreendedores, investidores, famílias inteiras para ganhar a vida na região que, futuramente, seria conhecida como o Vale do Aço. Nessa trilha, Timóteo deu os seus primeiros passos para se tornar uma “cidade aberta”, com administração própria e vocação para o desenvolvimento.

Mas ao longo dos anos, sobretudo nas duas últimas décadas, todo um esforço capitaneado pela Aperam colaborou para tornar a cidade um campo fértil para novos negócios, principalmente aqueles ligados à cadeia produtiva do inox. Além do bom ambiente empresarial, a cidade se destaca também pela qualidade da infraestrutura e dos serviços ofertados à população.

Na área de educação, por exemplo, 66 instituições de ensino públicas e privadas estão disponíveis para formar os jovens estudantes da região. Dentre elas, sobressai o Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais (CEFET-MG), que oferece cursos de nível técnico e superior. Na saúde, a cidade dispõe de 23 unidades públicas e outros 51 estabelecimentos privados, entre eles, o Hospital Vital Brasil, inaugurado pela antiga Acesita na década de 1950 e cedido à Sociedade Beneficente São Camilo há pouco mais de 20 anos. Hoje a empresa mantém um contrato de comodato com a entidade e estabelece metas de gestão que beneficiam toda a cidade.

Como resultado dessa trajetória, o município, que hoje possui pouco mais de 80 mil habitantes, registra o 17° melhor Índice de Desenvolvimento Humano de Minas Gerais, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgados em 2013. O resultado obtido – 0,770 – coloca Timóteo na faixa considerada como Desenvolvimento Humano Alto, com destaque para os itens educação, renda e longevidade.

Testemunhas da história

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Dr. Newton de Almeida presenciou grandes mudanças na cidade, em especial, na área da Saúde

Ao comparar o momento da sua chegada à região com o período atual, o obstetra Newton de Almeida utiliza uma palavra para definir as mudanças pelas quais a cidade passou: desenvolvimento. A estrutura criada nos anos de 1940 e aprimorada nas décadas seguintes permitiu que empreendedores atraídos para o município encontrassem condições para prosperar. “Apesar de ser uma cidade pequena, em relação às grandes metrópoles, aqui encontramos boas escolas, comércio variado e qualidade de vida”, observa.

O convite para integrar a equipe da Aperam foi feito por Pedro Sampaio Guerra, chefe do serviço médico na então Acesita. Em 25 de março de 1952, data que faz questão de lembrar, doutor Newton desembarcava na estação de trem. Após vinte minutos de viagem em uma jardineira, conheceu o local onde seria seu posto de trabalho.

 

“Era uma instalação provisória, que ficava ao lado da matriz. Mantínhamos algumas enfermarias e alguns ambulatórios. No anexo, funcionava o serviço odontológico. O novo hospital foi concluído tempos depois, no lugar que hoje abriga o Hospital e Maternidade Vital Brasil”, conta.

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Antônio Luiz, mais conhecido como Tó Barbeiro, gosta de colecionar objetos sobre a história de Timóteo

Quem também acompanhou as mudanças na relação entre a Empresa e a cidade é Antônio Luiz de Almeida Filho, mais conhecido como Tó Barbeiro. Há 54 anos, ele trabalha no salão Elite, barbearia que detém o título de estabelecimento comercial mais antigo do município, com 60 anos. Quando se trata da história da cidade, ele é categórico: “Ninguém conhece mais sobre esse assunto do que eu”. Além de gostar muito do tema, ele conserva com carinho um acervo de objetos, fotos e documentos, dentre os quais a gravação de entrevista feita com o Dr. Alderico, engenheiro que chegou à região na década de 40 e escolheu o local onde seria construída a Acesita. “Ele tem grande importância, porque possibilitou o início de tudo”, comenta.

Dissertação de mestrado

Um estudo feito na época da faculdade sobre a Usina Santa Bárbara, em Santa Bárbara d´Oeste (SP), e a sugestão de dois professores da Universidade de São Paulo (USP) conduziram a doutora em Arquitetura e Urbanismo, Vanda Maria Quecini, a conhecer um pouco mais sobre Timóteo (MG). As particularidades do projeto arquitetônico deram origem à dissertação de mestrado, “Timóteo: o legado urbano de um projeto industrial”. Em primeiro lugar, o fato de que a construção de Timóteo pela Acesita não ter sido apenas um projeto econômico, mas também de cunho social e cívico.

Outra coisa foi a existência de duas áreas centrais na cidade – questão que parecia bastante óbvia e bem resolvida, “mas logo fui alertada sobre os conflitos e as dificuldades de integração”, relata Vania Quecini.

Aniversário

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Vista panorâmica do centro comercial e bairro dos Caixotes em 1960

É notável a influência da Empresa em áreas como educação e infraestrutura. As festas cívicas e religiosas, o esporte e o carnaval também receberam patrocínio da Empresa. Cabe apontar ainda a presença de empregados da antiga Acesita nos poderes municipais, seja no quadro legislativo, frequentemente dominando a Câmara, chegando a ocupar cerca de 80% das cadeiras de vereadores, seja no quadro técnico, especialmente nos anos 1960, quando profissionais graduados eram raros na região. Além do momento inicial, todas as expansões da usina impactaram de algum modo na conformação da cidade, com a abertura de vias e bairros, a chegada de novos trabalhadores e as reformas de edificações e bairros existentes. Mas, além disso, três momentos merecem destaque. O primeiro deles foi o ano de 1953, quando ocorre a chegada de Edmundo de Macedo Soares, ex-presidente da Acesita. Depois, a estatização da Acesita, em 1956, que representou o momento no qual a atuação empresarial sobre a cidade é mais abrangente, quando se implanta um projeto urbano e social. E, por fim, a abertura da cidade em 1968: os logradouros públicos passaram à administração municipal e as casas foram vendidas aos empregados.


Curiosidades

  • De onde surgiu o nome Timóteo? Existem muitas hipóteses, mas ninguém sabe qual é a 15verdadeira. Alguns dizem que a inspiração veio do nome do comerciante Manoel Timóteo que, por volta de 1915, se tornou referência na região. Outros o atribuem à proximidade com o córrego do Timóteo.
  • As primeiras moradias operárias foram construídas o mais perto possível da área industrial. Como matéria-prima, era utilizada a madeira dos caixotes que serviam como embalagens dos equipamentos. Assim nasceram bairros como Vila dos Caixotes, Vai Quem Quer e Mundo Vira, que são hoje os bairros Centro Norte, João XXIII e Núcleo Industrial, respectivamente.
  • A cidade operária de Acesita constituiu-se de um núcleo fechado no qual o comércio e os serviços de infraestrutura eram de responsabilidade da Empresa. A partir de 1964, teve início a abertura da cidade, com a venda das casas do conjunto residencial da antiga Acesita para os empregados e a posterior emancipação política do município.
  • Nos primeiros tempos havia apenas um colégio na região, localizado em Coronel Fabriciano. Com o suporte da Empresa, surgiu em 1954 a Escola de Formação Profissional, que ofereceu a base educacional para muitos profissionais de nível superior em atividade na região.
  • Os municípios de Nova Era e Antônio Dias também foram levados em consideração pelo 18engenheiro Alderico Dias de Paula para abrigarem a sede da Acesita. No entanto, a ideia foi descartada por possuírem terrenos acidentados, a inexistência de reservas florestais e devido à escassez de nascentes que pudessem ser aproveitadas para gerar energia para uma usina siderúrgica.
  • Timóteo possui duas áreas centrais. A região próxima à Usina até hoje é conhecida como Centro-Norte enquanto a área que sedia a prefeitura, na outra ponta, é chamada de Centro-Sul. Até hoje algumas linhas de ônibus ainda chamam a região Norte de Acesita.

1938 Criado o município de Antônio Dias, do qual o núcleo urbano de Timóteo, com apenas seis ruas, era distrito. Já a vila de Timóteo nasceu muito tempo antes, em 1840.

1942 O engenheiro Alderico Rodrigues de Paula inicia sua missão de percorrer a região em busca do lugar ideal para construção da Acesita.

1944 É fundada a Acesita, hoje Aperam South America no terreno onde era a antiga fazenda Angelina.

1945 Tem início as etapas de levantamento topográfico, terraplenagem e construção dos acampamentos provisórios para a estrutura da Empresa.

1946 Início da construção do Hospital da Acesita, concluído em 1956.

1947 Inauguração do cinema São José, o primeiro de Timóteo, construído em um galpão cedido pela Acesita.

1948 Timóteo é transformado em distrito de Coronel Fabriciano.

1953 Construção do prédio da Escola Angelina Alves e Carvalho.

1954 Criação da Escola de Formação Profissional.

1955 É criada a Liga Acesitana de Futebol.

1963 Surge o Colégio Técnico de Metalurgia.

1964 Tem início o processo de abertura da Empresa com a venda, para os operários, das casas que compunham a vila residencial. No mesmo ano, ocorre a emancipação política do município.

1965 Instalação da Câmara Municipal de Timóteo.

1968 A Acesita transfere à prefeitura a responsabilidade por serviços públicos como limpeza urbana e conservação da estrutura das ruas.

1979 Tem início a reformulação da área central norte da cidade.

1980 Início da construção de três pontes no córrego do Timóteo para integrar fisicamente os dois núcleos existentes, sede e município. A população também é convocada, por meio de um plebiscito, para decidir sobre a possibilidade de mudança do nome Timóteo para Acesita.

1982 Criação da Associação de Lazer dos Funcionários da Acesita (Alfa), que incorporou os Clubes Elite e Operário.

1983 Realização do primeiro Festival de Música Popular conhecido como Uirapuru.

1990 Começam as pesquisas para dar origem ao primeiro Plano Diretor da cidade.

1991 Criação do Conselho de Defesa do Meio Ambiente, Codema.

1997 Conclusão do primeiro Plano Diretor da cidade de Timóteo. Criação da Secretaria Municipal de Meio Ambiente.

2002 O Conselho de Patrimônio Histórico, Artístico e Natural da cidade é criado.

2008 Município registra 98,8% da população alfabetizada, o que lhe confere o menor índice de analfabetismo do Leste de Minas Gerais.

2010 Timóteo é a 41ª cidade mais populosa do Estado, com 81.119 habitantes.

2013 Segundo IBGE, Timóteo tem o 17° melhor IDH de Minas Gerais. O resultado de 0,770 deixa a cidade na faixa considerada alta, com destaque para educação, renda e longevidade.

2014 50 anos de emancipação são celebrados com ampla programação cultural.

 

 

 

 

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