Revista Espaço

100 anos do inox

Excelência centenária

Invenção do inox completa um século com desenvolvimento contínuo, que coloca o material em posição de destaque hoje e para futuras aplicações

2

Aço inoxidável pode ser base de obras de design inovador, como a prateleira concebida pela artista Fernanda Marques e exposta na última edição da Casa Cor São Paulo

Em 1912, o pesquisador inglês, Harry Brearley, chefe dos laboratórios Brown Firth, em Sheffield, Inglaterra, recebeu um pedido de fabricantes de armas de fogo para encontrar uma liga metálica mais resistente, que não se desintegrasse com o calor dos gases liberados pelo disparo dos equipamentos.

Ao misturar metais em diversas quantidades, Brearley não encontrou um material imune a desgastes. No entanto, descobriu uma liga que não sofria corrosão em­ contato­ com­ a­ atmosfera:­ o­ aço­ inoxidável,­ que de imediato passou a ser utilizado na fabricação de talheres – até então, eles eram feitos de aço carbono e duravam pouco em função do contato com os ácidos de alimentos. Apesar de controvérsias e outras teorias, essa é a versão tida pela comunidade científica como origem do aço inoxidável.

O material se desenvolveu, ganhou eficiência e hoje é referência em versatilidade e qualidade.

Inicialmente, o inox era fabricado a partir de aço carbono comum, adicionando um teor mínimo de 10,5% de cromo, elemento responsável por formar uma camada protetora fina, resistente e invisível, conhecida como filme passivo, que evita a corrosão.

Hoje, além do cromo, outros elementos químicos, como o níquel, molibdênio, nióbio e titânio são adicionados ao material para alcançar propriedades específicas. Com isso, diferentes famílias de aços inoxidáveis podem ser formadas, cada uma com características próprias, o que garante a variedade de aplicações.

“A descoberta do inox é uma das grandes invenções recentes do homem. O material reúne propriedades mecânicas excelentes, como a própria resistência à corrosão, normalmente só encontradas em metais economicamente inviáveis, como o ouro, a platina e o níquel, ou tecnicamente insuficientes, que é o caso do cobre. E, para complementar, ainda é um material reciclável e alinhado com as necessidades ambientais do planeta”, avalia o gerente do Centro de Pesquisas da Aperam South America, Ronaldo Claret. 3


O futuro bate à porta

4

De material base de fachadas e pisos a aplicações industriais e elementos de decoração, inox ganha cada vez mais espaço, sendo referência de modernidade, eficiência e limpeza

Os metalurgistas pioneiros na indústria de aço inoxidável dificilmente imaginavam o status e o crescimento exponencial que o material teria, chegando ao recorde de 32 milhões de toneladas métricas produzidas em 2011 no mundo, segundo dados do International Stainless Steel Forum (ISSF).

De acordo com o diretor Comercial da Aperam South America, Frederico Ayres Lima, esse aumento do consumo, potencializado nos últimos dez anos e, hoje, superior ao próprio crescimento da economia, evidencia o diferencial que os principais atributos do material – durabilidade, estética, versatilidade, baixa pegada de carbono na produção e índice de 100% de reciclagem- apresentam diante de um mundo que cada vez mais preocupa-se com a limpeza e a sustentabilidade. “O inox chega muito jovem ao seu centenário. O material é associado e requisitado para aplicações modernas, tecnológicas, funcionais e sustentáveis, em linha com as necessidades do planeta e da sociedade”, resume.

Frederico acrescenta que a Aperam tem um papel relevante nesse sentido, trabalhando na prática um de seus valores organizacionais: a Inovação.“Podemos nos orgulhar do papel que desempenhamos, com uma jornada incessante para colocar o material em evidência, fomentando e investindo em modernas aplicações e soluções”, diz. 5


Pioneirismo timotense

História da produção de chapas planas de inox no Brasil começa na Usina da Aperam South America6

Os primeiros registros de fabricação de inox ­no ­Brasil ­são ­da ­Villares ­Metals­(na­ época­ Siderúrgica ­Villares), ­que­ começou a­ produzir­ barras ­do material­ em­ 1941. ­Já­ a produção de aços inoxidáveis planos foi iniciada nos anos 1970. Naquela década, a Aperam South America, então Aços Especiais­ Itabira­(Acesita), ­exibindo ­os traços de inovação e criatividade que a caracterizam até hoje, reuniu um grupo de profissionais para visitar empresas líderes do setor ­na ­Europa, EUA­ e ­Japão.

7

Primeira linha de produção de chapas planas de inox na Usina de Timóteo, na década de 1970

A pesquisa resultou na ideia original de implantar uma usina que associaria a aquisição de ­um laminador ­Steckel ­–­ equipamento que permite a produção de laminados em diferentes dimensões, com melhor qualidade e maior rendimento metálico – aos recursos já existentes na Aciaria, integrando a produção de aços ao silício com o inox.

O engenheiro Frederico Meyer já trabalhava na Aperam na época e pode acompanhar de perto as primeiras experiências com o material. “Preparar a Usina para a produção e assimilar e operar as instalações com as novas tecnologias foram algumas das tarefas que tivemos”, recorda.

Ele também revela os inúmeros desafios enfrentados ­pelas ­equipes:­“Era ­o ­início ­de­ um processo, com muitas novidades e situações que exigiam dedicação dia após dia, com mudanças nas instalações e na estratégia de implantação do plano de expansão”, relata.

8


Aprendizado internacional

9

Características como versatilidade e modernidade do material permite sua aplicação em diferentes usos, como a escultura Reach, do artista israelense Dror Benshetrit, exposta no Mube, em São Paulo

Para o projeto das instalações e compra de equipamentos, a então Acesita firmou parcerias internacionais para transferência de tecnologia com duas companhias especializadas em inoxidáveis: a americana Armco Steel e a japonesa Daido Steel.

Complementando o processo, a Empresa também investiu na capacitação dos empregados, iniciando, junto à Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), um programa de formação de engenheiros, e enviando profissionais para o exterior, nas chamadas “Missões Japonesas”. O objetivo era preparar o grupo que seria responsável por aprimorar os processos e incorporar novos produtos à linha de produção.

“Era como um curso de especialização em que permanecíamos três meses no Japão, aprendendo sobre o processo de fabricação de inox com ensinamentos teóricos e práticos. Tivemos a chance de conhecer os equipamentos que teríamos em Timóteo em plena operação”, conta o engenheiro metalúrgico, José Cordeiro Neves, que, na época, fazia parte da equipe da Aciaria.

Em 1977, após investimentos em obras e equipamentos que chegaram a US$ 700 milhões, a então Acesita inaugurou a linha Sendzimir de laminação a frio de chapas inoxidáveis, marcando o início da produção. A Empresa ganhou uma nova dimensão, passando a dispor de todas as linhas de processamento necessárias à fabricação, tanto de inoxidáveis como de chapa de aços elétricos, com autonomia para produção de bobinas a quente.

10

José Cordeiro Neves e os arquivos que guarda da época de início da produção de inox, quando fazia parte da equipe da Aciaria, na então Acesita

No ano seguinte, a Aciaria recebeu o conversor AOD – equipamento onde é carregado o pré-metal, matérias primas e fundentes e também é injetado oxigênio mais argônio para elaborar o aço (oxidação seletiva do carbono)–, com capacidade de 120 mil toneladas por ano. A laminação a frio da Acesita se estabelece como principal fonte de abastecimento do mercado interno de inox, com produção de mais de 42 mil toneladas de chapas e bobinas.

Já em 1979, a nova Aciaria e o Alto-Forno 2, um dos maiores do mundo a carvão vegetal, são inaugurados, consolidando a Companhia como a única usina integrada(produção de aços inoxidáveis e elétricos) do setor na América do Sul e líder no Brasil e no continente, posição que ocupa até hoje.

“Olhando para trás, nos damos conta do desafio imensurável que enfrentamos. Por outro lado, vemos que o trabalho de todos os profissionais nos experimentos, absorção de ensinamentos e aperfeiçoamento dos processos foi decisivo para conquistarmos o domínio da tecnologia de produção do inox, permitindo a entrada do país no segmento”, avalia José Cordeiro.

11


Marcos da indústria nacional

12

Utilização em toneis de vinho é uma das novas aplicações que o desenvolvimento do material tem permitido

Nessa trajetória, o aço inoxidável esteve presente em grandes momentos de evolução da indústria brasileira. A­ partir­ de­ 1980,­ a ­Empresa desenvolveu ­o ­inox ­316,­ aplicado em destilarias, para atender ao Programa Nacional do­ Álcool­(Pró-Álcool).­ Desde­ então,­o ­setor sucro alcooleiro continua ­absorvendo ­parte­ da ­produção ­do ­316,­­ além de outros tipos de aço inox cuja utilização nas usinas foi sendo incorporado ao longo do tempo.

Nos anos 1980 e 1990, a evolução tecnológica da indústria automobilística lançou mão do material para reduzir as emissões de poluentes nos carros brasileiros. Aproveitando a oportunidade, a Aperam South America ­tornou-se ­uma ­das­ principais ­fornecedoras ­de aços inoxidáveis para aplicação em escapamentos e catalisadores.­ Hoje,­ 100%­ desses ­sistemas­ de ­exaustão são produzidos com o material, que também vem sendo cada vez mais utilizado na composição das novas gerações de automóveis, assegurando níveis ainda mais baixos de emissão de gases.

“A Empresa sempre acompanhou os avanços tecnológicos do mercado, mantendo uma posição de vanguarda na produção de inox e se constituindo como a referência nacional e internacional na produção desse tipo de aço. Ao longo dos anos, desenvolvemos em nosso Centro de Pesquisas um portfólio de produtos mais complexos, de maior valor agregado, resultado de um trabalho constante de pesquisa e desenvolvimento com participação de nossos clientes, ofertando novos produtos e estabelecendo novas aplicações”, ressalta o presidente ­da­ Aperam­ South­ America, Clênio ­Guimarães.


De importador a referência de inovação

13

Material empresta sua beleza para obras de arte, como a Cloud Gate, escultura do artista Anish Kapoor, localizada em Chicago, Estados Unidos

Sempre se reinventando, a Aperam South America continua atenta para que as soluções em aço inoxidável atendam às novas frentes econômicas abertas no Brasil e contribuam para a o fortalecimento da infraestrutura do país.14

Os maciços investimentos em pesquisa e tecnologia fazem com que os 100 anos do inox também atestem a mudança de posição do país na produção do material, deixando de ser um comprador internacional para se transformar não só em exportador do produto, como também de novas tecnologias.

De olho no futuro, a Empresa também já está se antecipando a demandas dos próximos anos. “Além dos aços duplex, as linhas de pesquisa apontam para o desenvolvimento de aços super duplex, super austeníticos e para uma nova geração de ferríticos, que terão propriedades de corrosão muito superiores aos seus pares atuais”, projeta Claret.


Texto produzido com base em informações do livro “A história do inox através das pessoas ­–­ Acesita ­60 ­anos” ­e ­do ­site ­do ­International­ Stainless Steel ­Forum­(ISSF).

Compartilhar: